A 1ª grande montanha conquistada! Relato de superação por Felipe Galdino Campos

Há 8 meses aproximadamente recebi um convite/proposta/desafio (não sei bem o que foi) para fazer o caminho de Santiago de Compostela em 2020, saindo da França, o que daria aproximadamente 1000 km de percurso e eu topei.

Tinha uma bike velha, esquisita, cheia de folgas – meu irmão dizia “essa bike é um esculacho” e foi nela que comecei meu treino. Como todo bom ansioso, e sou bastante ansioso, não queria esperar 2 anos para fazer o trajeto e sentado no Google comecei a pesquisar sobre o caminho e descobri que não havia apenas 1 mas uma infinidade de saídas com o mesmo destino. Havia um que se encaixava perfeitamente, o caminho português, 260 km saindo de Porto. Seria esse o primeiro desafio, o preparo para os 1000 km, conseguiria agradar minha mãe que mora em Lisboa, conseguiria visitar meu primo que mora em Porto e de quebra ainda iria pedalar e treinar, formou!!!

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Felipe Galdino Campos / Arquivo pessoal

A bike “esculacho” foi meu primeiro conto com a subida da Joatinga, era uma subida in-ter-mi-na-velllll, a bike rangia, gritava e estalava e na descida eu percebi que ela não aguentaria muito, precisava achar outra e assim começou minha procura por uma bike que me coubesse, o que não foi simples pelo meu tamanho 1.89 e 120 kg de peso, mas achei uma na Specialized.

A Joatinga foi meu primeiro encontro com uma subida, sai da casa do meu brother, atleta e ciclista premiado, em direção a minha casa na barra. Sem dúvidas sem a paciência dele e sem a força e ensinamentos eu nunca teria conseguido subir a Joatinga e nem chegado na vista chinesa, hoje, dia 14 de dezembro.

Pacientemente ele me acompanhou no que para ele foi um passeio monótono e para mim meu maior desafio. Minha Freqüência Cardíaca (FC) beirava os 190 enquanto dele não passava de 120, minha cara era de sofrimento a dele rindo da minha “sofrência”.

Vamos rapaz, dizia ele, força na perna, diminui o giro, a FC vai cair. Não precisa correr, vai devagar. Inacreditavelmente quando estou exausto essas palavras aparecem na minha cabeça (Força na perna. Diminui o ritmo. A FC vai cair).

Na maioria do tempo pedalava sozinho, ora na bike de spinning, ora na esculacho. Saia de casa e ia pro trabalho, a ida de boa mas a volta era cruel. O tempo passava e a vontade de ir mais longe era cada vez uma exigência, algumas vezes ia, ia e ia e quando lembrava que tinha o mesmo tanto para voltar eu me arrependia de ter ido tão longe.

Vamos rapaz, força na perna, diminua o giro, a FC vai cair! Com esse quase mantra eu voltava pra casa, algumas vezes xingando o vento, outras vezes me achando estúpido por ter ido tão longe e pensando que droga estou fazendo!

Precisava trocar de bike e achei! Achei uma bike que me senti confortável com algumas mudanças, troca selim, guidão e avanço. Agora tinha uma bike quase de ponta. Pedalar parecia ter ficado mais fácil.

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Felipe Galdino Campos / Arquivo pessoal

Há 2 meses minha vida vira de cabeça pra baixo e sou forçado a me separar da bike, eu aqui, o capacete ali, a bike lá e tudo uma confusão enorme. 2 meses foram suficiente s para meu condicionamento ir pro buraco. Tempo para ter saudade e não ver a hora de voltar para a bike. Pensei em desistir. Pensei que nunca mais voltaria a pedalar. Mas com a viagem a Santiago chegando precisava voltar a pedalar. Voltei pedalando para Grumari, 50 km de cara, sol, vento e subida. Claro que na volta me xinguei de tudo quanto é nome e claro que me senti um louco. Um burro. Porque ir tão longe? Porque fazer isso? Iria me machucar e ter que parar novamente. Burro. Burro. Burro… Mas cheguei. Inteiro? Nem tanto. Mas cheguei. Cheguei feliz, com o corpo doido mas a alma lavada, estava novamente amando a bike.

Dia 12 de dezembro, peguei a bike a fui a “praia”, era para ir a praia mas quando percebi já tinha ido a praia, a Joatinga e estava subindo furnas. Nunca pensei que um dia estaria ao pé de furnas e mais ainda, nunca pensei que ao pé pensaria em subir, mas esse dia chegou e me achando um super-homem, depois de ter pedalando 2 hs eu resolvi subir e subindo fui e fui e fui até que me faltou pernas, fôlego, coração. A alma dizia VAI PORR.. mas o coração, já em 200 dizia, PARA SE NÃO EU PARO! Bem, resolvi escutar o coração e com a alma chorando dei meia volta e desci.

Hoje, sexta feira, dia 14, foi o grande dia. Decidi encarar furnas novamente. Decidi que hoje daria ouvido a alma e bati um papo com o coração e entramos em um acordo. Acordei as 5, já tinha separado tudo. Comi 4 biscoitos de maisena, meio litro de mate, acendi o pisca da bike, coloquei o Garmin, capacete, roupa, sapatilha e parti. Não sabia o que me esperava e nem se conseguiria ver a Vista Chinesa e a Mesa do Imperador. Ao pé de furnas cheque a FC 145. Na marcha leve, um suspiro seguido de um inspiração longa e vamos que vamos.

Força na perna. Diminua a cadência que a FC baixa, estava em 150 e eu contente com o acordo que fiz com o coração.

Já pra o primeiro km escuro um ônibus, que não entendo o motivo, me joga para o acostamento e justamente onde havia um bueiro aberto. Meu primeiro tombo, cai pra pista e por sorte não subia ninguém atrás desse gentil motorista. Bato a poeira, encaixo a sapatilha e arranco com dificuldade, ainda tinha muita subida.

Quando pensava que nada poderia piorar, a cada curva percebi que mais íngreme ficava. Força na perna, diminua a cadência que a frequência cairá! Vamos que vamos, subindo. Sozinho. Tempo para pensar na vida. Contar faixas no asfalto e respirar ar puro do alto.

Depois de 1 hora e meia chego a Mesa do imperador e seguida de uma descida a Vista Chinesa. Meus Deus!!! A Vista Chinesa estava ali, diante dos meus olhos revelando um Rio de Janeiro lindo maravilhoso. O silêncio era de ensurdecer. A alma chorava de alegria e o coração desacelerava. A respiração voltava ao normal e eu…eu não era eu. Eu era a vista. Eu era a superação. Eu era a loucura. Eu era a pessoa que conseguiu chegar na vista pela primeira vez. Louco? Maluco? Pinel? Vai saber, vai entender, vai explicar.

Gostaria que todos pudessem ser loucos, malucos e “pineis” pelo menos uma vez na vida.

Relato de superação de Felipe Galdino Campos, meu irmão.

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Felipe Galdino Campos / Arquivo pessoal

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