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Entrevista exclusiva com Raiza Goulão sobre a evolução das pistas e bikes de XCO

A UCI publicou um vídeo de reconhecimento, feito com piloto Scotty Laughland, do percurso da corrida de Cross-country Olímpico (XCO) que acontecerá na bela floresta de Glentress, como parte do Campeonato Mundial de Ciclismo UCI 2023 em Glasgow e em toda a Escócia, de 3 a 13 de agosto de 2023.

Em um percurso inserido num ambiente muito natural e com alguns trechos espetaculares. O trajeto mantém a tendência contemporânea do XCO, entretanto, argumenta-se que as seções mais extremas são especialmente impressionantes devido ao seu ambiente único. O percurso apresenta uma série de saltos particularmente ousados e um ‘rockgarden’ surpreendente, ao ponto de nos fazer questionar como a UCI os aprovou, especialmente considerando as alterações que exigiu no ano anterior em Petrópolis.

Abaixo a entrevista exclusiva com Raiza Goulão

Bike aos Pedaços – Em sua experiência, como você viu as pistas de XCO evoluírem nos últimos anos? Quais foram as mudanças mais significativas e como elas impactaram a forma como você corre?

Raiza Goulão – Acredito que há de fato uma significativa evolução nas pistas de XCO no contexto internacional. No Brasil, essa evolução tem sido recente e bastante notável, ocorrendo de forma mais abrupta em comparação com as mudanças graduais nas copas do mundo.

Recordo-me dos anos passados, quando a pista de Taubaté surpreendeu com saltos maiores do que o previsto. No cenário brasileiro, isso gerou apreensão entre os atletas, uma vez que o XCO não é a modalidade mais difundida no mountain bike nacional. Araxá também tem se destacado ao introduzir regularmente inovações. No entanto, é notável que o mountain bike como um todo está passando por um processo de aprimoramento, com a expansão de saltos, a popularização do pump track e o aprimoramento do fluxo nas trilhas.

É digno de nota que a UCI tem desempenhado um papel crucial em equilibrar esse progresso, visando a segurança e a saúde dos atletas. Tal equilíbrio é evidente nas provas da Copa do Mundo, onde os saltos são meticulosamente planejados, com áreas de recepção projetadas para minimizar os riscos em caso de erros. Essa abordagem cautelosa demonstra o compromisso em assegurar que a evolução das pistas não comprometa a integridade dos competidores, mantendo a competição emocionante e desafiadora ao mesmo tempo.

BAP – Como a evolução das MTBs de XCO influenciou seu desempenho e estratégia durante as corridas? Houve algum desenvolvimento tecnológico específico que mudou drasticamente o jogo para você?

RG – Essa progressão também impôs maiores demandas em relação ao equipamento e à habilidade de pilotagem. Investir em treinadores tornou-se essencial atualmente, resultando em refinamentos e reajustes constantes. Reservar parte do nosso cronograma de treinamento para aprimorar as habilidades técnicas tornou-se fundamental. Um notável exemplo dessa transformação foi observado na suspensão, onde atualmente utilizo uma configuração de 120mm, em contraste com os antigos 100mm.

Assim, a adaptação é uma constante conforme as características das pistas e, é claro, a estratégia também desempenha um papel significativo. Avaliar se vale a pena ganhar tempo em uma descida ou talvez em um obstáculo no qual não se tenha total confiança é uma análise constante.

No entanto, frequentemente, o primeiro encontro com a pista é crucial, na minha opinião. Geralmente, na primeira volta, abordo a pista com considerável cautela, buscando superar todos os obstáculos. Identificar as trajetórias mais rápidas e seguras é uma prática constante, assim como considerar alternativas, como linhas secundárias, caso ocorra algum incidente à frente. Até o momento deste ano, felizmente, ainda não enfrentei uma pista que tenha gerado bloqueios específicos devido a um obstáculo em particular.

BAP – Considerando as alterações recentes tanto nas pistas quanto nas bicicletas, como você acredita que o futuro do XCO se parecerá? Quais tendências emergentes você está vendo que podem ter um impacto significativo na modalidade?

RG – Bem, na minha perspectiva, tenho notado que o mountain bike está passando por um processo evolutivo que está incorporando elementos do enduro. Acredito que, em algumas ocasiões, a UCI está adotando uma abordagem mais cautelosa para não acelerar excessivamente essa evolução.

Isso ocorre porque, por vezes, essa rápida progressão pode ser perigosa, dado que nem todos os atletas estão preparados para lidar com os desafios que vêm com saltos, gaps significativos e a presença de trajetos menos técnicos na pista. Isso pode resultar em acidentes graves.

Estou convencida de que essa evolução está em curso, e a cada dia a mídia e a transmissão têm ganhado mais destaque nas pistas. Como resultado, o espetáculo e o aspecto comercial ganham relevância, o que nos faz buscar um equilíbrio delicado. Essa busca se dá porque a intenção é proporcionar uma experiência emocionante tanto para o público presente como para aqueles que assistem remotamente. É por isso que as pistas estão se tornando mais técnicas, incorporando trechos desafiadores de subida, com o objetivo de intensificar a competição e proporcionar uma experiência repleta de emoção para todos os espectadores.

BAP – As pistas de XCO estão se tornando mais técnicas e desafiadoras. Como essas mudanças afetam seu treinamento e preparação? Como você se adapta a novos obstáculos e desafios em cada pista?

RG – Ao analisar inclusive os vídeos das pistas do Campeonato Mundial e lembrando das restrições impostas pela UCI durante a etapa da Copa do Mundo aqui em Petrópolis, percebo com muita convicção que a evolução do mountain bike tem colocado demandas crescentes nos atletas e no equipamento.

Para me ajustar a essas mudanças, eu tenho uma inclinação a trabalhar na fase de base, focando em treinamentos técnicos e na prática constante. Tenho preferência por realizar sessões mais leves em que eu possa aprimorar minhas habilidades técnicas ou dias de treinos intensivos, conhecidos como intervalados. Nessas sessões, incorporo práticas específicas, como simulações fluidas de trajetos e reservo períodos de descanso para executar saltos desafiadores. Dessa maneira, consigo replicar situações que encontro durante uma prova e, no momento, respeitar meus limites.

Há ocasiões em que, se entro na pista já exausta, evito arriscar, inclusive durante uma competição, caso minha mente e meu corpo não estejam tão ágeis. Sempre é preciso um raciocínio estratégico e um planejamento meticuloso, colocando no papel as estratégias para o dia da prova, especialmente quando temos apenas alguns segundos para tomar decisões cruciais.

Foto divulgação Cesar Delong

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