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Rogério Bernardes: Evolução das pistas e a chegada do aro 32

Rogério analisa a chegada do aro 32 no MTB e explica impactos no desenho das pistas de cross country

Conversamos com Rogério Bernardes, um dos principais nomes do mountain bike no Brasil e referência internacional na organização de eventos de Cross Country. Rogério fez uma parada no meio de suas férias com a família, para nos atender, o que nos fez sentir felizes e honrados!

À frente da CiMTB – Copa Internacional de Mountain Bike, Rogério foi e é peça fundamental na consolidação do país no calendário mundial da UCI. A CiMTB tem sido seletiva para os Jogos Olímpicos e partir do próximo ano pontuará também para Los Angeles 2028.

Com mais de 30 anos de atuação no esporte, ele acompanhou de perto a evolução do MTB desde os anos 1990 e ajudou a transformar o padrão técnico das competições nacionais. Sob sua coordenação, a CiMTB se tornou a principal competição de XCO da América Latina, reconhecida pelo alto nível das pistas, organização e experiência oferecida a atletas e público.

No últimos anos a CiMTB aumentou ainda mais sua relevância internacional, com a realização de etapas da Copa do Mundo em Petrópolis 2022 e Araxá 2024 e 2025. Além disso, foi responsável pela construção da pista de mountain bike dos Jogos Olímpicos Rio 2016, considerada uma das melhores da história dos Jogos desde 1996, primeiro ano do MTB em Olimpíadas.

Nesta entrevista, Rogério fala sobre a evolução das pistas, os desafios do Cross Country moderno e os próximos passos do MTB no Brasil e no cenário internacional com mais um elemento, as tão faladas rodas aro 32.

1. Quem constrói pista há décadas sempre adaptou o traçado às bikes do momento. Com a liberação do aro 32, o que muda de verdade no desenho das pistas — curvas, raios, obstáculos e inclinação?

Desde que a gente começou a construir pistas, lá em meados dos anos 1990, o traçado sempre foi adaptado ao equipamento disponível. Quando eu comecei, as pistas tinham 7 a 8 km, as provas duravam cerca de 2h30 e o trabalho era muito mais simples: basicamente limpar a trilha para cumprir o percurso do cross country. Com o tempo, tanto o formato das provas quanto as pistas foram evoluindo.

Em relação ao aro 32, num primeiro momento eu não acredito em mudanças drásticas. Vai acontecer o mesmo processo que aconteceu quando mudamos da 26 para a 27,5 e depois para a 29. Primeiro os atletas testam, começam a usar, sentem o comportamento da bike. Só depois disso é que o construtor começa a ajustar o desenho da pista.

Quando a 32 começar a ser usada de forma mais ampla, naturalmente alguns pontos vão precisar de adaptação: abertura de raios de curva, ajustes em frenagens mais fortes, talvez mudanças pontuais em obstáculos e saltos. Mas isso não acontece de uma vez. A pista evolui conforme o equipamento mostra o que realmente precisa ser ajustado.


2. Comparando 26, 27.5, 29 e agora o 32, você vê o risco de as pistas ficarem “rápidas demais” ou menos técnicas, ou o desafio continua nas mãos do construtor?

Eu não vejo o risco de as pistas ficarem rápidas demais apenas por causa do tamanho da roda. A velocidade maior é uma tendência da modalidade como um todo, não só do equipamento. A evolução das bikes, das rodas e principalmente dos atletas fez o esporte ficar mais rápido.

O desafio continua totalmente nas mãos do construtor. A técnica não desaparece, ela muda de forma. Hoje a exigência é muito maior em leitura de terreno, escolha de linha, controle de frenagem e precisão. Se o construtor quiser manter o nível técnico alto, isso é perfeitamente possível, independentemente do tamanho da roda.

Além disso, a evolução não veio só das bikes. Os atletas se dedicam muito mais à técnica hoje, treinam saltos e obstáculos que antes eram considerados naturais. É um conjunto de fatores que mantém o esporte técnico, mesmo com velocidades maiores.


3. Pistas clássicas, pensadas lá atrás para bikes menores, ainda funcionam bem com rodas maiores ou você acha que algumas características vão inevitavelmente desaparecer?

As pistas clássicas continuam sendo extremamente importantes e funcionais. Elas têm um papel fundamental na formação dos atletas. Um exemplo claro é a pista da Fazenda Sossego, que tem poucos saltos, mas muitos trechos técnicos, subidas fortes, variação de ritmo e leitura de terreno. É uma pista completa, mesmo sem exagerar em obstáculos artificiais.

Ela é diferente de pistas como Araxá, que evoluíram para um perfil mais técnico, com muitos saltos e maior exigência de pilotagem. As pistas clássicas oferecem menos risco, especialmente para atletas mais jovens e para quem está entrando no cross country.

O que mudou é que hoje os atletas mais novos chegam muito mais preparados. Crianças de 9 ou 10 anos já têm acesso a treinadores, clínicas técnicas e estrutura que não existiam antes. Então essas pistas clássicas continuam válidas, talvez com pequenos ajustes, mas sem perder suas características principais.


4. Do ponto de vista de segurança e fluxo de prova, o aro 32 exige repensar frenagens, zonas de risco e ultrapassagem, ou é só mais uma evolução que o MTB já sabe absorver?

Ainda é cedo para afirmar qualquer coisa definitiva. A gente precisa entender o que a 32 vai representar dentro da pista, principalmente nas provas de alto nível, como Copa do Mundo e competições internacionais, que estão sempre na vanguarda técnica.

A bike maior, naturalmente, pode exigir pistas um pouco mais abertas, especialmente em pontos de ultrapassagem e frenagem. Isso já aconteceu antes. Em Araxá, por exemplo, a pista foi aberta de um ano para o outro justamente para melhorar o fluxo de prova.

Mas eu encaro a 32 como mais uma evolução que o MTB sabe absorver. O esporte já passou por mudanças muito grandes e sempre se adaptou. As mudanças em segurança e fluxo vão acontecer conforme a 32 se tornar mais presente e mostrar onde realmente precisa de ajustes.


Considerações finais

O mais importante é entender que o mountain bike não estagnou. A chegada do aro 32 mostra que a evolução continua. Ela vai oferecer mais uma opção técnica para o atleta, assim como já existe hoje a escolha entre hardtail, full suspension, diferentes geometrias e tipos de pneu.

Assim como na Fórmula 1, onde o piloto escolhe o pneu e o acerto do carro conforme o circuito, o atleta de MTB vai poder escolher o melhor conjunto para cada prova: XCC, XCO, XCM, dependendo da pista 29 ou 32, do clima e do estilo de pilotagem.

Isso torna o esporte mais técnico, exige mais conhecimento do atleta e aumenta a importância da equipe. No fim, deixa o MTB mais estratégico, mais interessante e mais emocionante para quem compete e para quem assiste.


Foto divulgação CIMTB / Ney Evangelista

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