Dia das Crianças: a parte de nós que a bicicleta ainda desperta

Com o passar dos anos, deixamos brinquedos para trás, ganhamos responsabilidades e aprendemos a ser adultos. Mas algumas coisas continuam capazes de despertar a mesma sensação de liberdade da infância. Uma delas é a bicicleta.

Quando criança, ninguém precisava de um motivo especial para andar de bicicleta.

Bastava pegar a bicicleta, chamar um amigo e sair.

Uma rua podia se transformar em uma pista. Uma praça, em um território desconhecido. Uma descida, em uma aventura. Uma bicicleta simples podia ser suficiente para passar horas longe de casa, descobrindo caminhos e criando histórias que pareciam enormes naquele momento.

Então crescemos.

Vieram o trabalho, as contas, os compromissos, a família, os horários e aquela lista interminável de coisas que precisam ser resolvidas.

E, sem perceber, aquela criança que encontrava diversão em praticamente qualquer lugar foi ficando cada vez mais escondida.

Até que um dia a gente volta a pedalar.

E alguma coisa acontece.

A bicicleta consegue atravessar o tempo

Não é preciso voltar a ser criança para sentir aquilo novamente.

Basta pedalar.

Pode ser em uma trilha de mountain bike, em uma estrada de terra, em uma ciclovia ou simplesmente pelas ruas da cidade. Quando as primeiras pedaladas começam, existe uma pequena mudança na forma como percebemos o mundo.

O vento bate no rosto.

O corpo entra em movimento.

A paisagem começa a passar.

E, por alguns instantes, os problemas que pareciam enormes antes de sair de casa ficam menores.

Talvez seja essa uma das coisas mais bonitas do ciclismo: ele não nos transforma em crianças novamente, mas nos permite reencontrar algumas das sensações que tínhamos quando éramos uma.

A liberdade.

A curiosidade.

A vontade de descobrir.

A satisfação de conseguir.

E até aquele prazer quase inexplicável de chegar em casa cansado e pensar: “foi bom demais”.

O adulto também precisa brincar

Existe uma ideia estranha de que brincar é algo que deixamos para trás quando crescemos.

Como se a vida adulta exigisse seriedade o tempo inteiro.

Mas talvez uma das consequências de levar a vida excessivamente a sério seja justamente esquecer algumas coisas importantes.

Esquecer que não precisamos transformar tudo em produtividade.

Que nem todo esforço precisa gerar dinheiro.

Que nem toda saída precisa ter um objetivo.

Que podemos simplesmente fazer alguma coisa porque gostamos.

É por isso que o ciclismo pode ser tão especial.

Mesmo quando treinamos, competimos ou buscamos melhorar nosso desempenho, existe um componente de prazer que permanece.

A bicicleta continua sendo uma desculpa legítima para sair de casa e descobrir o que existe depois da próxima curva.

Talvez seja por isso que gostamos tanto de bicicletas

Adultos podem passar horas discutindo bicicletas.

Peso.

Suspensão.

Pneus.

Relações.

Geometria.

Rodas.

Componentes.

Tecnologia.

E não há nada de errado nisso.

Mas talvez exista uma explicação mais simples para esse fascínio.

A bicicleta é uma das poucas coisas que continuam permitindo que o adulto tenha uma relação genuinamente lúdica com um objeto.

Quando crianças, queríamos a bicicleta mais bonita, mais rápida ou mais legal.

Depois de adultos, continuamos querendo.

A diferença é que agora sabemos explicar tecnicamente por que queremos aquela bicicleta.

No fundo, porém, talvez a justificativa seja muito parecida:

“Porque eu quero andar nela.”

A criança aparece nas pequenas coisas

Ela aparece quando encontramos uma trilha nova e ficamos curiosos para saber onde ela vai dar.

Aparece quando descobrimos uma estrada bonita por acaso.

Quando encaramos uma subida difícil e comemoramos o momento em que finalmente conseguimos vencê-la.

Quando descemos uma serra e sorrimos sem perceber.

Quando chegamos ao destino e já começamos a pensar no próximo passeio.

Ela aparece até nas coisas aparentemente banais.

Na bicicleta encostada na parede.

No capacete separado para o domingo.

Na vontade de experimentar uma rota diferente.

Naquela ansiedade boa antes de sair.

Talvez a criança nunca tenha ido embora.

Nós apenas ficamos ocupados demais para ouvi-la.

Não é sobre voltar a ser criança

O Dia das Crianças não precisa significar nostalgia.

Não precisamos voltar no tempo.

A infância passou — e tudo bem.

O que podemos fazer é levar algumas coisas dela conosco.

A capacidade de se encantar.

A coragem de experimentar.

A disposição para cair e tentar novamente.

A curiosidade diante de um caminho desconhecido.

E, principalmente, a capacidade de fazer alguma coisa sem precisar justificar o prazer que ela proporciona.

A bicicleta pode ser esse lugar de encontro.

Entre quem fomos e quem somos.

Entre a criança que queria descobrir o mundo e o adulto que agora tem a oportunidade de fazê-lo por outros caminhos.

Feliz Dia das Crianças para quem ainda pedala

Talvez seja por isso que tantos adultos continuem apaixonados por bicicletas.

Não é apenas pelo esporte.

Não é apenas pela saúde.

Não é apenas pela competição.

Não é apenas pela máquina.

É também pela sensação.

Aquela sensação de liberdade que começa quando saímos de casa e apertamos o primeiro pedal.

A sensação de que existe um mundo inteiro esperando depois daquela esquina.

A sensação de que, mesmo depois de tantos anos, ainda podemos descobrir alguma coisa nova.

Neste Dia das Crianças, talvez não seja necessário comprar um brinquedo.

Talvez seja suficiente pegar a bicicleta.

Escolher um caminho.

Pedalar sem pressa.

E deixar que, por algumas horas, aquela criança que ficou escondida atrás das responsabilidades encontre novamente espaço para brincar.

Porque crescer é inevitável. Deixar de ser criança por completo, talvez não precise ser.

E, enquanto houver uma bicicleta para pedalar, talvez exista também um caminho de volta.


Fotos divulgação

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