Relato | Caminho de Santiago de Compostela de bicicleta

Desafio dado é desafio aceito… pelo menos eu funciono assim e guarde esse número, fará sentido no final – 46:50:42. Pra falar a verdade eu não sei de onde herdei isso dentro de mim, este lado competitivo, de querer sempre me desafiar, ir além e além. Pois bem, foi assim que aconteceu.

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Foto arquivo pessoal

Resolvi tirar férias em Portugal, aproveitar que tenho estadia 0800. Sabe, queria férias mesmo, algo que podemos chamar de férias: de bike e de tudo. O plano era ir sozinho, ficar por lá por uns 15 dias e aproveitar o friozinho. Mas… não foi bem assim, família é família em qualquer lugar do mundo. Apenas por pedir a chave de casa para minha mãe tudo virou uma grande festa. Em uns 10min meu irmão me ligou dizendo que também iria à Portugal. Em uns 15min foi a vez do meu pai. Uns 30min minha prima com o filho e minha tia. E então a festa estava montada.

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Foto arquivo pessoal

Junto com a ida do meu irmão veio o desafio: cara, que tal fazer o caminho de Santiago da Compostela? Ué, porque não, pensei!! E então veio o meu planejamento. Fiz um planejamento detalhado, minucioso e cheio de detalhes. Levei em conta que estaria pedalando com um “marinheiro de 1º viagem”, meu irmão. Ele não pedala tão frequentemente como eu e não quis ter surpresas durante a nossa pedalada. Também levei em conta que este desafio seria uma grande conquista para ele. Imaginem, fazer uma pedalada de 264Km (Porto – Santiago) somente com 8 meses de pedal e tendo subido umas 2 ou 3 vezes montanhas aqui no Rio de Janeiro. Sem dúvidas não seria fácil e sem dúvidas o mental seria a máquina propulsora e não o físico.

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Foto arquivo pessoal

Eu já tenho uma bagagem bem maior. A bike está em minha vida por aproximadamente 20 anos ou mais, já fiz algumas travessias de 700Km. Já fiz provas de maratona de MTB, já fiz competições de 24hrs e eu encarei essa travessia como algo que não me traria grandes dificuldades.

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Foto arquivo pessoal

Resolvi sair de Lisboa, seriam 400Km a mais do que o meu irmão. Esses dias “extras” seriam a base do meu treinamento, abrindo o meu ano de 2019 para as competições que viriam. Tinha planejado fazer esse percurso, Lisboa – Porto, em 3 dias. Sabia que teria que andar muito forte. Eu sabia detalhes por detalhes deste percurso e sabia que não seria tão fácil, mas seria possível. Algo que eu não contava: o amanhecer. Realmente não dava para começar a pedalar muito cedo e eu havia planejado começar os pedias por volta das 6 da manhã, aproveitar ao máximo os dias para poder andar o maior tempo possível. Infelizmente não deu. Por causa do inverno, este nem tão difícil de controlar (o frio), o dia estava amanhecendo por volta das 7:30 da manhã, inviabilizando sair antes disto. As marcações do caminho já são complicadas durante o dia e noite, sem ver muito bem, seria perda de tempo. Por isso resolvi sair para os pedais apenas com o dia claro.

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Foto arquivo pessoal

Meu 1º dia foi de Lisboa a Golegã – 125km com 691m de altimetria e 7:23min de pedal. Foi um pedal relativamente fácil e tudo dentro do previsto. Não me cansei muito. Tive apenas muita dificuldade saindo de Lisboa, as marcações são terríveis e me perdi muito durante o percurso. Não lembro bem mas tenho impressão que teria que percorrer 142Km para o planejamento ter sido perfeito.

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Foto arquivo pessoal

2º dia foi de Golegã a Rabaçal – 100km com 1662m de altimetria em 6h e 54min. Este dia foi bem duro, as subidas são de perder o folego e em uma tive que sair da bike para empurrar, impossível de pedalar para qualquer pessoa. O impressionante é achar que sempre era a última e ao olhar pro horizonte a certeza que outras partes duras ainda vinham pela frente. Esse trajeto foi bem gostoso de fazer, tenho o MTB no sangue, andar no meio do mato me faz bem. Fazer subidas íngremes me faz bem. E neste trajeto pude sentir bastante isso: sair das cidades e realmente estar conectado com a natureza, refletir sobre a vida e imaginar os peregrinos desbravando esse trajeto – foi fantástico, realmente incrível. Outra coisa que pude perceber neste dia, as marcações – as setas amarelas, ficavam melhores na parte rural do trajeto.

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Foto arquivo pessoal

Uma preocupação que tive ao acabar o dia. O meu planejamento estava indo por água abaixo. Deveria concluir em 3 dias e no final do segundo dia percebi que seria muito difícil, até impossível. Teria que aumentar outro dia a viagem. Não gosto muito de sair do planejamento inicial, isto realmente me irrita muito. Mas foi algo além do meu controle, apenas liguei para o meu irmão e contei a novidade, que não chegaria em 3 dias. Além de estar saindo pra pedalar tarde por causa do inverno, tinha que parar de pedalar cedo também, o sol estava se pondo às 17hrs e esse era o limite máximo do pedal. Às 17hrs já estava procurando lugar pra ficar, não queria correr o risco em ter que dormir acampado e passar frio. E acreditem, estava fazendo muito frio mesmo. Enfim, faltavam 175km e eu ainda tinha esperança de terminar em apenas 1 dia.

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Dia 3 foi de Rabaçal a Oliveira de Azeméis – 132km, 1700 de elevação. Tudo isto em 8hrs de pedal. Pense em um dia infernal. A mudança de planejamento me deu uma baixa no ânimo. Com 15km de pedal tive que parar para colocar a cabeça no lugar. Parei, comi, refletir e melhorei… Andei forte rumo a Porto. O Plano era Porto e ponto. Mesmo que chegasse a noite, mesmo que tivesse que usar os faróis que levava comigo. Infelizmente o dia não conspirou a meu favor, por volta de 30 a 40km, chegando em Coimbra meu pedal quebrou. Tive que parar, tive que desviar o caminho por aproximadamente 8km. Perdi por volta de 1hr e meia em função da troca do pedal. E pronto, pedal trocado e vamos socar a bota novamente, resolvi tentar tirar o tempo perdido… andei ainda mais forte, ritmo de prova mesmo. Baixei a cabeça e sempre estava acima de 30Km/h de velocidade. A noite chegou cedo. O frio veio junto e estava insuportável. Oliveira de Azeméis não é uma cidade muito receptiva para os peregrinos, não existem muitas possibilidades de estadia. Você tem a opção de ficar nos Bombeiros de graça desde que chegue cedo e tenha lugares disponíveis, ficar em um hotel de 4 estrelas (tenho impressão que deva ser bem caro) ou em uma pensão xexelenta, esta foi a minha opção. Paguei 20 euros contrariado porque a pensão realmente era muito ruim, mas não tive escolha.

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Foto arquivo pessoal

Tive que deixar Porto para o próximo dia.

O 4º dia foi de Oliveira de Azeméis para Porto – 45.5km em 801 metros de elevação. Demorei apenas 3hrs para chegar no destino. Não tive pressa, fui tranquilo e fui curtindo as vistas e os monumentos. Em Vigo consegui pegar uma missa que ainda começava, vocês não tem ideia da beleza da igreja, fantástica. O meu irmão já me aguardava na casa do meu primo em Porto… O ideal seria ter um dia de descanso, esse era o planejamento mas como não consegui fazer em 3 dias eu não teria este descanso, seguiríamos viagem no dia seguinte mesmo.

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Foto arquivo pessoal

E assim foi nosso dia em Porto.

Cheguei na casa do meu primo, conversei um pouco com o pessoal, tomamos umas geladas e fomos para um passeio na cidade. Saímos, eu e meu irmão, para dar uma volta e fazer um turismo. Descanso? Que descanso que nada. Ficamos batendo perna até umas 21hrs e foi bem bacana e demos boas risadas.

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Foto arquivo pessoal

O 5º, 6º e 7º dia foram de Porto a Redondela – foram dias tranquilos pra mim. Andamos um total de 166km com 2610 metros de altimetria e com uma média de 4hrs e meia de pedal. Tudo foi no ritmo do meu irmão. A pressa havia acabado. Dali em diante iríamos em dupla, iríamos curtindo o visual, os monumentos, rindo, conversando e etc. Foram dias especiais e com bastante subidas. Uma atenção especial para o 6º dia… que pesadelo. Ao acordar já havia preparado, ou, pelo menos, tentado, o espírito do meu irmão para o dia que viria. A tal serra. A tal Labruja. Ele não entendeu muito sobre a subida, afinal de contas estávamos subindo desde o início. O tempo todo ele vinha dizendo que eu estava errado, que tinha errado o planejamento e que essa tal serra não existia. Eu só falava: ela virá, economize, a coisa vai ficar feia. E dito e feito, a coisa ficou braba, bem braba mesmo. Impossível de pedalar, em alguns momentos era quase impossível empurrar. A Serra é bem braba, demoramos um bom tempo para percorrer aproximadamente 4km. Meu irmão até pensou na possibilidade de dormirmos por ali mesmo, tamanho que era o cansaço que estávamos. Na minha cabeça essa não era uma alternativa cabível, apenas tínhamos que sair dalí o mais rápido possível, e foi o que fizemos. Saímos dalí e a Labruja estava vencida… acordei com uma tremenda dor nas costas por causa do empurra bike infernal. Felizmente dormimos em um lugar bem bacana e a recuperação foi suficiente. O Caminho de Santiago estava quase vencido, apenas alguns quilômetros nos separavam do destino final, estávamos animados. E vamos lá, vamos continuar.

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8º e 9º dias, dias finais, Redondela pra Santiago – 89km, 1439m de elevação e 7 horas e meia de pedal. Logicamente que o cansaço estava estampado nas nossas caras… mas tínhamos uma força extra, apenas por saber que o desafio estava prestes a acabar, que as bundas iriam descansar, que as pernas não iriam mais sofrer com as subidas. Junto a isto um pensamento: apesar de todo sofrimento e de todo esforço envolvido também estaríamos acabando com o prazer de estar passando por lugares incríveis. Estaríamos acabando com o convívio entre 2 irmãos, acabando com as conversar, com as risadas, com os stories para o Instagram. Estaríamos acabando com essa história fantástica dos peregrinos. Cada parada, em cada almoço, em cada copo de cerveja que tínhamos neste trajeto uma nova história nos eram contadas … que aprendizado tivemos. Nossos tempos vividos em cima da bike: pra mim – 46:50:42 e pro meu irmão – 21:20:50 ficarão guardados na lembrança pra vida. Serão histórias que sempre iremos nos lembrar e contar com orgulho pra quem quiser ouvir. Cada clique de uma foto, cada suor escorrendo na testa, cada morro vencido estará gravado pra sempre dentro da gente… saímos vitoriosos deste caminho. Saímos maiores internamente do que entramos. Um grande aprendizado espiritual. Todo sacrifício valeu a pena e eu, Gustavo Galdino Marcondes Campos, posso responder pelos 2: faríamos tudo novamente.

Relato de Gustavo Galdino Marcondes Campos.

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Foto arquivo pessoal

1 comentário em “Relato | Caminho de Santiago de Compostela de bicicleta”

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